A grama era de um verde fosco, esbranquiçada, amarelada, seca, fina… Pensando bem, havia mais terra do que grama, e mais areia do que terra.
   Os campos de cimento, todos esburacados, foram inutilizados, ninguém mais jogava bola ali. E o parque… Vandalizado, interditado; nenhuma mãe deixava seu filho brincar por lá; os cabos de quase todos os balanços estavam arrebentados; no meio do escorregador, um buraco, e os pés da casinha estavam desprendidos do chão, deixando-a bamba e insegura.
   Assim mesmo, eu o levei pra lá, pois ainda que o balanço estivesse manco, e mesmo com a sensação de que toda sua armação de ferro desabaria a cada empurrão dado para balançar, era bom. Era bom estar lá, sentir o vento alvoroçando os cabelos, soprando morno em meu rosto. Lá, o sol era mais ameno, ainda que a grama seca jurasse o oposto; as árvores grandiosas e velhas faziam sombras confortáveis por todos os lugares do parque; o silêncio, consequência do vazio, era intimidador, contudo, relaxante. Em um lugar ou outro, podia-se ver um conjunto de pequenas flores rosas ou amarelas que, mesmo não passando de mato, ainda sim eram flores e, em meio àquela paisagem estorricada, pareciam-me incrivelmente doces e reconfortantes.
   Eu queria que ele experimentasse aquilo. Talvez fizesse bem a ele, e, se fizesse bem a ele, faria bem a mim. Era por isso, eu queria me sentir bem, tão egoísta, eu o levei ao meu refúgio para que ele o deleitasse, e para que eu me regozijasse, pois aquilo tudo era meu, apenas meu e de mais ninguém, e eu estava dividindo sua singularidade pela primeira vez… E com ele ! Eu sabia que ele amaria tudo e, presunçosa, sabia também que ele seria grato pela minha generosidade.
   Aconteceu, nós chegamos, ele foi apresentado a cada metro quadrado do meu esconderijo. As corujas em seus ninhos, olhavam-no receosas, enquanto ele explorava e amava todos os cantos do meu sonho.
   Subitamente, uma inveja penetrou-me as veias, e logo estava presente em todo meu corpo. Não sei por que, não posso explicar, mas eu me senti presa ao chão, e tudo o que eu podia fazer era observá-lo gozar de tudo o que era meu… Eu não conseguia me mover para me juntar a ele, enquanto ele balançava. E também não podia, havia apenas um balanço. Com um aperto em meu coração que tirou-me o fôlego, uma agonia, um medo de perder qualquer pedacinho do meu recanto, eu percebi, com despeito, que aquele lugar era para apenas uma pessoa, e essa pessoa tinha que ser eu.
   Gritei o nome dele, o levei embora dali, disse pra ele nunca mais voltar e ele não voltou mais apenas por não saber o caminho. Minha paz era minha outra vez. As árvores, as corujas, sorriam para mim, só pra mim. Meu sonho estava a salvo, meu refúgio continuava são, continuava meu e apenas meu. Eu não abriria mais suas portas tão cedo, não parecia valer a pena.
   Contudo… Ah, hoje, esta solidão me entedia e me assombra em meus momentos obscuros. Talvez, e apenas talvez, eu esteja pronta para encontrar alguém, e talvez eu esteja disposta a tentar dividir meu abrigo, de novo. Mas somente talvez…

Comentários

  1. Nem preciso dizer que suas palavras são extremamente maravilhosas, a cada sílaba, a cada palavra, a cada linha , a cada frase um sentimento uma emoçao, a cada texto um coração. Agradeço por ter o privilégio de ler-te. by: Eu DAY...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Ano Três