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Mostrando postagens de Novembro, 2011
A nós. À vida nossa. À imensidão do que sentimos. À alvura do riso vindo com o singelo pensar. À saudade. Ao conforto de querer bem.
   À melodia doce, cantando o sol num dia de chuva, cantando o dia numa noite de plangor; ao reerguer-se com o peito inflamado, orgulhoso do que é, de onde está; ao firme enlaçar de mãos; à jura sincera de afeto perene; ao companheirismo substituindo a resignação - todavia, à paciência; à mudez de momentos esmerados; aos abraços intermináveis - aos braços sem começo ou fim... A nós, ao infinito de quem somos, enfim.
   Invariavelmente... Apaixonadas.



Eu já matei você mil vezes e seu amor ainda me vem.
Então me diga, quantas vidas você tem ?
Pequenina, simples ânsia; desejo de respirar, vontade acanhada de respirar, tenção quase inexistente de respirar. Fraco, débil intento de apreciar, percorrendo-lhe intimamente, ar... Infinitamente, ar. Cerrar os olhos e inspirar, saciar as entranhas, entorpecê-las com o que quer que haja neste ar. Silenciosamente, a atear-se nas paredes do âmago; aumentando, oferecendo-se, mostrando-se, conquanto ainda quase indistintamente, o querer unir-se ao invisível e respirar. Esquivando-se de percalços advindos de receios, alojando-se em cada porção, existindo. Existindo, enfim ! Alimentando-se habilmente de seus próprios passos; fazendo cada parte estremecer para querer, admitir a pretensão de findar o que era modesto apetite. Atracar-se ao desejável ar, deixar-se conduzir pelo venerável ar, conhecer de onde vem o entorpecer-se, o respirar-se. Crescendo, tornando-se maior e maior e tangível e enérgico e não enquadrando-se mais à mudez, não enquadrando-se mais à paz de ser pequena, não enqua…
Alheias às crenças. Palavras de cuidado a cada fim de noite consolam-me de que ele está... Bem.
   Não há aqui um movimento. À espera daquele cujos braços me erguem a cada manhã, pelo ímpeto de respirar com o toque de sua lembrança, encontro-me.
   Desejo-o amando-me em seus gracejos, amando-me em minha saudade. Cada minúcia, inteiramente. Dos olhos aos dentes, à inquietude, à voz, aos braços. Coloco-me ao seu lado. Desejo-o ao meu.

   Atrevimento é a maneira como eu juro que te conheço assim. Cada minúcia.

Embuste de um segredo que a mim sussurraram.

Um erro. Um, para enlaçar todo um acervo. Aquela nuvem apareceu designada a ser a segunda opção da garota, seu passa-tempo.
   Ela, a garota, nunca mais devia deixar-se envolver em sua brisa, uma vez que a nuvem, opiniosa, ironizara sua hombridade. A nuvem, entrementes, não devia nunca mais plainar sobre aquela menina, que se divertia com cada desencontro que produzia. Mas ela continuou ali, e a garota esqueceu-se do orgulho, ainda sem saber o que queria ser: se mulher, se menina.
   No fundo, elas não se mereciam. À menina não valia experimentar mentiras tão boas. Ela não merecia algo tão aberto à devassidades. Também não merecia tanta atenção, tanta doçura, tantas palavras que ela sempre sonhou, sem saber, em ouvir. Cabia naquela bruma todo seu bem e mal, era um primor dualista que, por sua vez, não merecia, simplesmente, alguém tão vulnerável e tão delicadamente ingênuo. Não merecia a frieza e o desprezo daqueles gestos calculados para prendê-la, e não merecia ser curativo de ni…
Quis esfolar os dedos, rasgar a pele para poder ver o sangue. Vermelho, vívido, invadindo o mundo exterior.
Falar estava lhe causando ânsia: alguém que tanto tempo passa sem dizer nada, apenas a ouvir mentiras, quando finalmente torna a abrir a boca, fá-lo para mentir também. Deplorável.
Estava também a sentir a fadiga de acreditar, sempre, sempre, que fazer-se alguém perfeito também tornaria outrem inclinado ao gesto. Grande erro. Agora, não queria mais crer. Não queria mais rosas. Não queria mais esforçar-se e esquecer os motivos do pranto diário. Não queria mais hiperbolizar a escassa doçura de poucos gestos que lhe eram dirigidos. Queria voltar no tempo, não desfazer nada do que havia desfeito: se havia algo em que acreditava naquele momento, era que, outrora, estava mais feliz. Feliz não, descobrindo a felicidade.
Mas, que pena, largou-a. Julgando-a inútil, insuficiente, inverossímil, largou-a.
Faz findar essa saudade. Abraça forte sua menina. Abraça com os lábios, traga beijos. Faz silêncio (e não distância). Faz estreitar. Acalenta, faz despertar, traga afagos. Deixa rir... Que desta maneira que ela ri, passa-se unicamente contigo. Traz tudo que houver de ti. Traz, pro mundo que aqui te espera.
Mas é claro que o sol vai voltar amanhã Mais uma vez, eu sei...
   O peito enfunou-se, orgulhoso da coragem que nem era sua. Quis espremê-la, enchê-la de beijos, agarrá-la e pular junto dela: um sonho !    ...Pouco a pouco, as mãos soltaram-se. A coragem tornou-se necessidade: os olhos brilhantes vislumbraram os fatos como fatos, não contos. Um torpor de estagnação dominou aquela boca, abafou os pulos - pensava no que ia fazer por aquela doçura que escondia inquietude num riso cotidiano. Desejara a vida simples, desejara que aquele ato bastasse para tudo, e imediatamente. Porém, aquele ato apenas tecia um começo - mais a aflição que causava a possibilidade de aquele começo estar inclinado a uma tragédia descomedida.
   O peito desassossegou-se, cuidando de uma agonia que nem era sua. Quis espremê-la, enchê-la de beijos, agarrá-la e pular junto dela: escondê-la ! Prendê-la em qualquer outra dimensão, tapar olhos e ouvidos, não deixar que lhe fizessem mal.
Confiou nele, sabendo que "se não fosse eu, seria qualquer outra". O que a levaria a querer dissipar seu fôlego numa guerra perdida, seguir por um caminho naturalmente incompleto, a conceder confiança a alguém cujo maior orgulho é ser indigno da mesma ?
   Mas,  céus...  Que tipo de cegueira estúpida,  de medo infame,  o levaria a não reconhecê-la ? (necessário lembrar: sem julgamentos e sem incivilidades selvagens. Selvagens.)

   Não é possível distinguir os passos dados do que é deixado pra trás - sob esse escuro, tudo, todos, ficamos iguais. É inevitável essa angústia, essa aflição, irremissível questionar "e agora ?". E agora, que há de ser ? Não há mudanças, todavia, se bem reparar: nada além da expansão dessa cratera que ele, há muito, vem revolvendo em seu peito.
   Não cogitou a distância, outrora ? Diga-me quem é que está perdendo. Não vê ?
Foram os dias inundados pelo silêncio de estar só... Foram as lágrimas temerosas do mistério inebriante. Foi o início, que veio a findar, despreocupado e desconhecedor do sentimento que guardava. Foi o recomeço aflito e ignorante de meus erros. Foram os meus erros sempre a convencer-me a conformar-me com a grosseria da vida, julgando não merecer nada melhor.
   Construtores de memórias, cingidores de lembranças e da força oriunda dos momentos pelos quais vale a pena lutar, pela força com que se acredita que vale a pena ficar...  Foi tudo. Todas as guerras sangrentas, das palavras que fizeram sangrar; todas as vezes em que minguaram os atos e fizeram-se esquecer os abraços; todo esse pequeno universo que, pequeno, faz-se tudo, pois é, simplesmente sendo, tudo o que se passou.
   Não me interessa o valor material, mas sim o gesto. O gesto somente. Este sorriso resignado nunca foi digno da delicadeza de receber uma flor. Nunca em ninguém fez despertar o desejo de dedicar-lhe uma pétal…
Ainda que houvesse olhares distraídos que pudessem se interessar em pousar sobre o que se passava logo à frente, o escuro inacabado deu-lhes a magia de não se importar.
   O céu nublado e as janelas de vidro escurecido enfraqueciam o sol, partiam-lhe os raios. A luz apagada, o frio suave, o silêncio, compunham aquela atmosfera cúmplice de mãos que se entrelaçavam timidamente, sem que houvesse toque algum.

   Criado o espaço, restava-lhe fechar os olhos e atentar à vida que seus braços abraçavam enquanto abraçavam o ar; à vida que, longe de suas carícias, respirava.