Amor em suas aparições

   Da primeira vez que surgiu, era sonho, era ilusão, era armadilha de Platão. Estava sempre tão perto, entretanto longe demais. Sempre a alguns passos e palavras de distância – o silêncio o afastava de mim. Cruzavam-se nossos olhares e, envergonhados, baixavam ao chão. Passávamos lado a lado, mas o bom senso, o juízo, a vergonha, jamais permitiram que eu o tocasse, que eu dissesse tudo o que havia para ser dito. A covardia – e talvez até a falta de vontade de superá-la – jamais permitiu a concretização dessa ilusão.
   O tempo, num ato de bondade, desgastou esse sonho. Porém, sempre esteve fora do seu alcance trazer o esquecimento… Assim, mesmo cansada, mesmo entendendo que este sonhando jamais se tornaria real, não foi possível ignorá-lo e, durante muito tempo, essa ilusão me consumiu…

   Da segunda vez, quando ele voltou – e sem demora –, era como se tivesse forma: pequena e quadrada, brilhante, vazia e carregava minha felicidade, que nada pesava. Chegou mais perto de ser real, mas ainda sim era impossível de se tocar. Se fez menos tímido, todo dia se declarava, se expunha – o silêncio não era a causa da separação, mas sim a distância… Pois um estava na América do Sul e outro na América Central. A distância era física, real, era o atrapalho, as milhas de separação.
   Sendo conhecido e correspondido, apesar de não ser mais que “quase-realidade ilusória”, esse sentimento perdurou… E perdurou… E então adoeceu. E muito prejudicou ambos os lados envolvidos. Tornou-se indispensável, desejo ardente… Tornou-se vício. Trouxe trauma.
   Mais uma vez, o Tempo somente não foi capaz de trazer a superação, por mais que persistisse, não foi o bastante para abater a dor, a saudade… E a ausência trouxe a insanidade, a depressão, o cinza que nunca mais se foi.
   Dessa segunda vez, resta confusão, indecisão. Como se fosse algo que não se pode crer ou duvidar. Sorrisos e lágrimas, calafrios causados por uma presença inexistente. Resta, acima de tudo, o medo e a insegurança. E um sentimento de tolice, por saber que o fato de tudo isso ser sentido deve-se a uma mentira, que nunca mostrou evidências de que se tornaria verdade – uma relação virtual.

   Apareceu uma terceira vez, meio que sem querer, apenas para amenizar a dor deixada pela segunda experiência. Apareceu simples, comum, sem nada extraordinário, mas, por algum motivo, tornou-se erosão. Nasceu sem timidez, sem meias-palavras, e nem o silêncio e nem a distância física foram motivos para separação. Não puderam impedir o toque, que aconteceu em questão de dias… E crescia cada vez mais a cada curto espaço de tempo, e não parou de crescer quando surgiu empecilho, quando pareceu sonho impossível. Mesmo com o medo e a culpa, não se desfez e a todo momento se declara mais forte, ardente, vívido, refletindo-se na vida de ambos.
   O Tempo nada tentou contra, e também nada poderia tentar, e nada conseguiria se tentasse. Mesmo abalado por erros e pela distância imposta, foi reestruturado pela pura e simples alegria de saber de sua existência, e nela crer.
   Há saudades, há vontades… Há arrependimento, há culpa, agonia, há o incômodo da ausência, o medo, a dor… Dor essa que não se vai, e nem poderia. Dor que atribui sentido à vida. Dor de amar e querer bem.

Comentários

  1. "amor só é bom se doer" - Canto de Ossanha, Vinícius de Moraes e Baden Powell

    ResponderExcluir
  2. "amor é algo indefinível", apenas pode ser sentido... e na maior parte dos casos (ou em todos), torna-se dor...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Ano Três