Cochilo

   Vamos andando vagarosamente. Dentro de você, eu. Dentro de mim, você. Resguardados um no outro. Pássaros espionam nossa telepatia.
   Sentados no banquinho da praça, flores invejam nosso contato. Essa primavera fora de época é o que eu vinha adiando fervorosamente, sem ao menos saber porquê. Os esquilos chegaram, você quer nomear cada um deles.
   Nós concordamos que temos que chegar a um acordo. Um sorvete para selar nosso compromisso. Chocolate pra mim, morango pra você.
   Nós realmente temos que arrumar a bagunça que fizemos. Eu queria ter sido a primeira a falar. Descansamos descalçados e deitados na grama, a salvo.
   Sinos. A Igreja fica perto. Vá por você, eu irei por nós e por mim. Nós ainda não entramos em acordo.
   O que você quer me ensinar eu já sei. Você se agita o tempo todo. Me afasto. Nós precisamos cuidar disto. Não podemos nos despedir enquanto não nos decidirmos. Eu quero isto.
   Voltamos a andar, encardidos e sozinhos. Nós nem percebemos o tempo passar. Inconvenientes não merecem crédito, nós dois o detestamos e ignoramos. Ele pára, então. Agradecemos em silêncio, mas eu desejo internamente poder viver logo o dia de amanhã, em que eu acordarei sozinha, no branco do meu quarto cinza. Dificilmente me lembrarei da sua feição verdadeira, você será simplesmente perfeito nos sonhos que eu sei que sonharei.
   Você não diz uma palavra enquanto eu te adivinho. Você quer saber como eu sempre acerto… É que você é incrivelmente igual a um dos amigos imaginários que eu tinha.

   Acordo e vejo que já anoiteceu. Quando adormeci, era madrugada.

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