Meu Jardim

   Eu vou cuidando do meu jardim de plantas secas. Gravetos e folhas pelo chão, plantas mortas fincadas na terra árida, em vasos imundos, velhos e trincados. Num canto ascoroso, a carcaça de um pássaro morto.
   Meu jardim é mais escuro que a mais densa das florestas. Mas meu jardim continua sendo meu jardim, então eu o amo de qualquer forma. As chuvas que vêm em nuvens negras como ele se encarregam de cuidar do lodo que reina solitário, acompanhado das aranhas que construíram suas teias por toda parte. As únicas criaturas que ainda vivem por lá.
   Cheiro molhado, é o cheiro do meu jardim. O verde escuro junto ao marrom morto dão uma sensação de pesadelo. Um enfeite, há muito deixado ali, envelhece, apodrece, deteriora; um anão-de-jardim que já tivera seu capuz de um azul tão vívido quanto o azul do céu, e suas vestimentas roxas, tão roxas quanto as violetas que nasciam ao seu redor, hoje está acinzentado, todas as suas cores descascaram, e o sorriso que nele fora pintado também desbotou. Aliás, toda a cor que havia em meu jardim, há muito se fora; tudo o que nascia ali, há muito deixara de existir.
   Meu jardim já foi um jardim de sonhos. Colorido como nenhum outro jardim jamais poderá ser. Os beija-flores disputavam as rosas, os outros pássaros vinham banhar-se no orvalho toda manhã, esquilos, coelhos, o verde claro das folhas, as tulipas… Meu jardim já fora único em sua beleza, soberano entre todos os outros, por abrigar bem-aventurança, por abrigar tanta vida, tanta cor, por abrigar o riso do vento soprando e dançando por entre as flores, por abrigar a luz do luar que vinha sentir o doce aroma das plantas. Por possuir em demasia tudo o que os outros jardins possuíam escassamente, e por possuir toda a magia que jamais será de nenhum outro jardim.
   Hoje, meu jardim é único em sua solidão e abandono. É Rei na Escuridão e na Morte, e continua sendo insuperável, incomparável,  inconfundível, continua sendo ímpar…
   Continua sendo o meu jardim.

Comentários

  1. Nossa...
    Adoro seus posts!!
    São textos de qualidade excepcional. E profundos...
    E... a conotatividade costuma reinar por aqui.
    Congratz.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Ano Três