Cissura

Não procuro interagir. Resguardada do ridículo, do silêncio ruborizado, do júri, do abandono, do supérfluo, prefiro permanecer alheia sem necessitar esforço demasiado. Não me agrada buscar por. Se o faço, é involuntário.
Incomoda-me mesmo tentar conhecer-me, sondar-me, falar-me. Capturando o que me preenche o pensamento, dirijo-me ao vazio, ao leitor invisível, ao que não há e, seguramente, não haverá.
Contradições infindas, incontestáveis: tão igualmente cheias de razão; questões para não se responder, mas concordar.
Deparo-me há tempos em um cruzamento. Tanto tempo que me pergunto se houve dia em minha vida em que nele não me encontrei. Todas as vias parecem-me de superioridade semelhante, diferentemente idênticas, porquanto detenho-me a examiná-las e a com elas devanear. Jamais seguir, entretanto. Difícil convencer-me. Talvez eu tema o perene, decisões das quais não devo me arrepender, caminhos pelos quais jamais poderei regressar (acho que uma tatuagem e um par de olhos verdes fizeram-me percebê-lo).

Outrossim, consterno. Intencionalmente ou não. Concebendo-me remorso ou não.
Adendo: tendo a agir insuportavelmente quando sob culpa e reconhecimento de erro.
É certo, entretanto, consola-me uma ideia. Quase uma anistia, uma licença à falha, à falta de cuidados evidente e repentina com que causo mágoas. Trato de uma escusa que aparentemente surgiu junto ao cruzamento dito acima, e que ainda demonstra acompanhar-me e ter-me interminavelmente em meu caráter, em minhas entranhas.
Esta flama hiperbólica (da qual já vim queixar-me outrora) que os ordinários nomeiam coração. Encastoado e fazendo doer ao mais suave soluçar pelo mais doce momento, compensando-me o penar que sou capaz (capaz, apenas - ou não) de incutir a outrem.

Comentários

  1. Nicole, admiro muito esse jeito que tu escreves, que nos faz ter vontade de levantar da cadeira e ir até a estante pegar um dicionário só pra entender melhor o que tu falas. É uma coisa muito difícil de se encontrar hoje em dia, parabéns!

    beijos

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